Em poucos dias a astronomia cravou dois recordes importantes. Primeiro, foi descoberto o aglomerado de galáxias mais distante jamais observado – há 10,2 bilhões de anos-luz. Pouco tempo depois e já vieram com a outra novidade: detectaram uma explosão de raio gama ocorrida 13 bilhões de anos-luz atrás.
A nova marca para aglomerados de galáxias foi definida com contribuições de vários telescópios na Terra – como o britânico UKIRT no Havaí e o europeu VLT no Chile – mais a palavra final do telescópio espacial Chandra, que observa em raios X. O aglomerado recém-descoberto formou-se quando o universo tinha em torno de um quarto de sua idade atual.
Batizado de JKCS041, ele foi detectado no UKIRT em 2006. Desde então já pairavam algumas desconfianças de que ele pudesse estar muito, mas muito, longe. Outras observações foram necessárias para confirmar não só sua distância, mas sua natureza: poderia ser apenas um amontoado de galáxias que parecem formar um aglomerado, por exemplo. Nesse ponto é que as observações com o Chandra foram fundamentais. Com elas, Stefano Andreon e seus colegas confirmaram a natureza do JKCS041.
A descoberta é muito importante porque após uns 3 bilhões de anos do Big Bang, as galáxias começaram a se aglomerar e esse processo reflete as características do universo naquela época. O aglomerado JKCS041 está justamente na fase mais inicial do processo. De acordo com Andreon, vai ser difícil achar aglomerados mais jovens que este.
Ben Maughan, que também participou do estudo, comparou a descoberta com o descobrimento de um tiranossauro: é um fato importante e notável, mas um tiranossauro só não faz verão. Com apenas um não vai dar para dizer muita coisa sobre todos os tiranossauros. Com a descoberta de outros aglomerados nessa escala de distância, aí sim será possível estudar a composição química em tempos tão remotos. Também será possível estudar a eficiência na formação de aglomerados, a temperatura do gás que emite os raios X que possibilitaram a confirmação da natureza do aglomerado… Além de tudo isso, será possível melhorar nossa compreensão da cosmologia do início do universo.
A mancha azul da foto representa o gás aquecido do aglomerado que está emitindo raios X, e as galáxias do aglomerado são as bolinhas brancas circundadas por uma mancha azul de raios X também. A propósito, o recorde anterior era de um aglomerado a 9,2 bilhões de anos-luz, descoberto pelo XMM-Newton, outro telescópio espacial de raios X.
O mais longínquo de todos
Parece olimpíada, mas não é. Além do novo recorde de distância para um aglomerado de galáxias, foi estabelecido também o recorde de distância de qualquer objeto astronômico jamais observado. Trata-se de uma explosão de raios gama (os famosos gamma ray bursts) que são detectados a uma média de quase um por dia. Essas explosões de raios gama foram detectadas pela primeira vez em 1967 pela constelação de satélites Vela, destinados a espionar os testes nucleares dos soviéticos.
Naquela época, tudo foi mantido em segredo. Ninguém sabia o que era. Vindo do espaço, era mais misterioso ainda. As coisas foram se desanuviando e hoje em dia as teorias mais aceitas indicam que essas explosões são originadas da morte de estrelas de alta massa em galáxias realmente distantes. Essas explosões são muito poderosas. Ocorrendo no local errado, certamente terminariam com a vida em planetas. Espera-se que Eta Carina, a uns 3.000 anos-luz de distância, um dia acabe sua vida como uma versão um pouco menos intensa do que uma explosão de raios gama.
O novo recorde estabelecido agora é de 13 bilhões de anos-luz, ou seja, ela ocorreu quando o universo tinha apenas 630 milhões de anos! Esse evento nos traz informações sobre um universo extremamente jovem que passava por drásticas mudanças. A estrela que explodiu fazia parte das primeiras gerações de estrelas, que possuíam características bem diferentes das atuais.
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